Sem Fazer Ondas
Inquisitiva Senhora Minha:
Perguntais pelo merecimento do naufrágio. Tereis digerido bem a noção dele, tão distante de Vós parece um afundamento? Naufragar não significa perecer, como não é igual a sobreviver. Encerra sempre é a submersão de uma esperança. A que se verifica quando o meio eleito para chegar a um desiderato vira, ou mete água, de forma impossível de estancar. Gostais de clarabóias para o Pensar dos Grandes? Olhai para Lao-Tsé: «Aquele que inventou o barco inventou também o naufrágio». Que é como quem diz: quem cria uma confiança num sucesso está, por definição, a reconhecer a paternidade da eventualidade do seu fracasso.
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Perguntais pelo merecimento do naufrágio. Tereis digerido bem a noção dele, tão distante de Vós parece um afundamento? Naufragar não significa perecer, como não é igual a sobreviver. Encerra sempre é a submersão de uma esperança. A que se verifica quando o meio eleito para chegar a um desiderato vira, ou mete água, de forma impossível de estancar. Gostais de clarabóias para o Pensar dos Grandes? Olhai para Lao-Tsé: «Aquele que inventou o barco inventou também o naufrágio». Que é como quem diz: quem cria uma confiança num sucesso está, por definição, a reconhecer a paternidade da eventualidade do seu fracasso.
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O naufrágio une todos os que se fazem ao mar, quer os dotados de grandeza essencial, quer os que permanecem enjoados no convés, conhecendo uma tragédia, mas incapazes de aceder ao Trágico. Sendo fatal, é para os primeiros o Destino; quanto aos últimos seria um alívio, se a sua própria pequenez lhes não vendasse os olhos para esse carácter benigno.Mas já sei, sois de um optimismo radioso e acreditais, sobretudo, na superação. Vereis, como Jack London todas as mais belas histórias protagonizadas por náufragos. Sem atentardes em que, por muito que seja tocado para a frente o barco - ai, que não se deve falar de corda em casa de enforcado! -, ficam marcados a fogo os padecimentos e as angústias do desastre. A felicidade que sobrevenha será sempre segunda oportunidade; mas o que há de terrível nela é ser segunda, não o ser oportunidade.
Falo, como reparais, já nos naufrágios interiores, aqueles que vão para o fundo no mar da biografia. Como o deste «Auto-retrato do Naufrágio», que Didier Mathieu pintou. Os tais que, segundo Ovídio, provocam o horror das ondas, mesmo das tranquilas. Por isso, por ter escolhido, cada um tem o que merece. Vós pensais a grande crise como detonador da luta que salva. Eu vejo-o como castigo auto-infligido, conscientemente ou não. Porque os que se recusam escolher, ao fazê-lo também escolhem; e não se livram da água, nem do que merecem; Só que a sua tutela não é o Naufrágio, mas o Dilúvio.
Coloco diante do Vosso julgar a lucubração imprecisa de quem vai boiando, por temer nadar sem destino à vista.

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