sábado, junho 24, 2006

Voltas de cinco estâncias


























Ode to the West Wind

I
O wild West Wind, thou breath of Autumn's being,
Thou, from whose unseen presence the leaves dead
Are driven, like ghosts from an enchanter fleeing,
Yellow, and black, and pale, and hectic red,
Pestilence-stricken multitudes: O thou,
Who chariotest to their dark wintry bed
The wingéd seeds, where they lie cold and low,
Each like a corpse within its grave, until
Thine azure sister of the Spring shall blow
Her clarion o'er the dreaming earth, and fill
(Driving sweet buds like flocks to feed in air)
With living hues and odors plain and hill:
Wild Spirit, which art moving everywhere;
Destroyer and preserver; hear, oh, hear!

II
Thou on whose stream, 'mid the steep sky's commotion,
Loose clouds like earth's decaying leaves are shed,
Shook from the tangled boughs of Heaven and Ocean,
Angels of rain and lightning: there are spread
On the blue surface of thine aery surge,
Like the bright hair uplifted from the head
Of some fierce Maenad, even from the dim verge
Of the horizon to the zenith's height,
The locks of the approaching storm.
Thou dirge
Of the dying year, to which this closing night
Will be the dome of a vast sepulchre,
Vaulted with all thy congregated might
Of vapors, from whose solid atmosphere
Black rain, and fire, and hail will burst: oh, hear!

III
Thou who didst waken from his summer dreams
The blue Mediterranean, where he lay,
Lulled by the coil of his crystalline streams,
Beside a pumice isle in Baiae's bay,
And saw in sleep old palaces and towers
Quivering within the wave's intenser day,
All overgrown with azure moss and flowers
So sweet, the sense faints picturing them! Thou
For whose path the Atlantic's level powers
Cleave themselves into chasms, while far below
The sea-blooms and the oozy woods which wear
The sapless foliage of the ocean, know
Thy voice, and suddenly grow gray with fear,
And tremble and despoil themselves: oh, hear!

IV
If I were a dead leaf thou mightest bear;
If I were a swift cloud to fly with thee;
A wave to pant beneath thy power, and share
The impulse of thy strength, only less freeThan thou,
O uncontrollable! If evenI were as in my boyhood, and could be
The comrade of thy wanderings over Heaven,
As then, when to outstrip thy skiey speed
Scarce seemed a vision; I would ne'er have striven
As thus with thee in prayer in my sore need.
Oh, lift me as a wave, a leaf, a cloud!
I fall upon the thorns of life! I bleed!
A heavy weight of hours has chained and bowed
One too like thee: tameless, and swift, and proud.

V
Make me thy lyre, even as the forest is:
What if my leaves are falling like its own!
The tumult of thy mighty harmonies
Will take from both a deep, autumnal tone,
Sweet though in sadness. Be thou, Spirit fierce,
My spirit! Be thou me, impetuous one!
Drive my dead thoughts over the universe
Like withered leaves to quicken a new birth!
And, by the incantation of this verse,
Scatter, as from an unextinguished hearth
Ashes and sparks, my words among mankind!
Be through my lips to unawakened earth
The trumpet of a prophecy! O Wind,
If Winter comes, can Spring be far behind?

Percy Bysshe Shelley



























A personificação selvagem do Vento do Oeste poderia trazer sentido positivo mas nem por isso - a fatalidade emerge, com a morte e os fantasmas. Inquire-se, diria naturalmente, pelo Vento de Este, eventualmente contrário ao Destruidor.

Ideias que ficam... da fluidez das nuvens, da indistinguibilidade da linha de céu e da linha de oceano tormentoso, das preditivas profecias de tumulto... ah, e da figura de um profeta que traz mais do que fogo e chuva. De mundo acima e abaixo da água, como se a superfície líquida fosse mais uma linha.

Subjaz a potencialidade de aceitar a morte e as mudanças na vida, mas, obviamente, não é uma imagem idílica, e toda a harmonia pode ser colocada em causa.
Aliás, a própria identidade pode ser mesmo posta em causa, no discurso improvável do «Se eu fosse...».
De qualquer modo, mesmo quando sabemos algo impossível de alcançar tal não nos faz parar de aspirar ou desejar.... Talvez (quiçá) o percurso que conduz à destruição e morte seja mesmo o que permite renascer - como do Inverno se passa para a Primavera.

Curioso a tardia chegada do fogo, quando o ar, a água e a terra são tão presentes!
E a força das Passagens... do vento a árvores e folhas, dos pronomes eu e meu, de encantador a encantado, de activo a passivo, de árvore a folha. Ideia nuclear esta, de individual e profunda vulnerabilidade, de um individual-plural.

Ashes and sparks. Reacesas pela Vontade. Pelo Poder-de-ser. Para lá da questão retórica, pois a Primavera sucede ao Inverno. E se o Inverno vier... supõe em profundidade não apenas a mudança das estações, como a re-referência a morte e renascimento.

Cada um de nós transporta em si os seus cemitérios privados, creio.
Sejam de pessoas, ideias, sonhos, projectos. O que não declina que lá existam flores. E borboletas...

Sorriso de Verão.
Beijos de passagem.


(West Wind, Sounders)

quinta-feira, junho 15, 2006














Caro Misan,

Ah direi que abarca – helás, e navega – sim, a «Palavra»: imagem-mensagem densa, de simbólicos.
Como as palavras... Sejam elas escritas (mais perenes, quiçá, ainda que fixadas) ou faladas (mais fluentes e espontâneas, quiçá, mais efémeras), palavras vestem ideias... E bem apontais a volúpia das palavras ou o risco das conjugações escassas de sentido.
O entretenimento ou a vacuidade, se assim pode dizer-se, que devoram a essência da palavra.
E empobrecem-nas assim como a nós.

Quanto aos regressos, Insigne amigo, da solitária imagem de «Espera» e o vazio da cadeira, tanto me perpassa a espera por Quem como o desalento por Ainda não ou por Já não. Asseguraria que na Vida (ah, a imagem é River of Life, de Burt Muller) as procuras e as demandas (diferirão? diria que sim..) incluem sempre o sonho de contornos difusos da silhueta de Quem navegue conosco, sabendo-se de antemão que o Ainda não e o Já não são inevitáveis e, de algum modo, ingeríveis.

Juntamos assim Pessoas e Tempo, que podemos reunir livremente nos nossos mapas pessoais e narrativas de vida.
Mapas como balizas topográficas, suportando metáforas e metonímias.
Narrativas de vida, como histórias inacabadas mesmo quando terminadas.
Dir-se-ia que nenhum mapa é inocente, nenhuma rota é linear, nenhuma narrativa singela. Planisférios que vamos escolhendo nos caminhos, espaços virtuais onde inventamos figuras de estilo... Perdoai o devaneio, que tende a ser recorrente, e a desembocar em pensares de vida e de si na vida - mas esse é também o sortilégio e o encanto da Ponte.

Beijos, com a firme promessa de voltar breve.

domingo, junho 04, 2006

Essa Doce Opressão na Entrega

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Eterna Distintiva Voz:
Olhai bem para a Juanalbertiana «Palavra» e dizei-me se não abarca todas e mais algumas das facetas que, tal com B.S., elencais? A máscara e o rebentamento, o fruto suspenso e a escada, as asas e a gestação, o livro - hélas - secundarizado, que sei eu? Dizeis que são as «roupagens felizes das ideias». E eu tendo a concordar, mesmo nos casos menos conseguidos. Porque servem, como os amantes dos trapos bem sabem, tanto para esconder como para realçar, seja por se talharem bem justas às formas, ou por, decotando, exibirem a nudez parcial que ganha em atenção o que a totalidade dispersaria. Mas seremos sempre senhores delas? Vã esperança! Só que os que tiverem mais recursos para mitigar a infelicidade sabem bem que abandonar-se a elas pode bem significar volúpia e encanto maiores e mais surpreendentes do que a irremovível domesticação verbal. Por isso, deixarmo-nos comover pelas combinações de escrita que produzimos ou que lemos é bem o sentido certo para acordar sentimentos que venham a a reproduzi-las através do toque individual que é cada contributo de um elo na genealogia da criação. Não estaremos como a escrava egípcia de Nerval em «VOYAGE EN ORIENT», a qual pensava que, dispondo juntamente o papel e os instrumentos da escrita, conseguiria que a redacção brotasse por si só. Mas será assim tão diferente o mecanismo em que a ideia pré-definida é ultrapassada pelos termos que da nossa mão saíram, produzindo acréscimo de vulto no pensar e no sentir, como no que mais importa, nas adesões?
Escravos das nossas roupas, submetemos também os outros à imagem que elas de nós dão. Mas nesse jogo em que decidimos o princípio sem tudo dominar está não pouca da fascinação da Vida.
Beijo cada Palavra Vossa
Thrope

Generosidade Virtuosa

Magnânima Ofertante:
Riposto com a «Modéstia», do nosso Bougereau, que é retrato fiel desta pálida noção que de Vós dais em tão ofuscante liberalidade.
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Ambos sabemos que Vós, a Mais Deslumbrante das Flores, sois também a própria Luz; e fingis que tal ainda é mero objectivo a alcançar, presenteando com a procura? Essa está sempre presente na minha preocupação primordial, pelo que aceito e guardo com a reverência sacral de nela ver um caminho apontado para me aproximar da Irradiante Fonte.
Todas as Graças do Mundo Vos sejam dadas.
Misan

Tarde Contra Nunca

Senhora:
Um regresso é sempre uma justaposição de lealdades. A do que soube, vencendo-se, aguardar. E a de Quem retorna, mostrando não ter perdido o vínculo que permitia a troca de impressões. Por isso a imagem de Jason T. Johnson, «Espera» sendo feliz por sugerir a fidelidade e disponibilidade, não o é, por obliterar o acicate que cada adiamento é. Mas no tarde se encontram a desilusão face à impaciência, com a ilusão da impossibilidade. Por isso Vos acolho com a alegria desse ousar que foi a constância, pese a demora.
«Bifurcações em vez de bipolares», dizeis bem, porque é no avanço da formação dos nossos "eus", mais do que na reactiva alternância perturbadora, que vivemos a insofismável contradição de buscarmos o Único Essencial no reconhecimento do e ao Outro, esse ideal que faz de uma quebra de nós o avanço para um estádio superior da personalidade.
É que ao descobrirmos Alguém com que compartir, tornamos bem estimáveis, maugrado nosso, as tais ruínas, na medida em que é o impulso que tenta tornar alcançáveis e disponíveis os tesouros de cuja propriedade privada abdicámos que tece e re-tece o esforço de dialogar, procurando na compreensão o prolongamento mítico da alegria do encontro.
Portanto não desesperemos, há que relativizar as dificuldades de encontrar num pronto-a-vestir terminológico o número das nossas exactas medidas, até porque, fazendo o traje por medida, permitir-se-á, pelas provas sucessivas que são a conversação e a descoberta, alcançar a segunda pele perfeita que nos sirva.
O que não se faz com todos, porém, certamente, se atinge Convosco.

quinta-feira, junho 01, 2006

em torno de palavras






















Caro Misan,

Passando os olhos por páginas, ressalta que partilharia convosco:

"Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. (...)
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.

Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.
(...)
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha."

in "Livro do Desassossego" por Bernardo Soares.


Ainda assim, em cada língua, as palavras organizam-se de modos diversos nas escritas singulares. A língua portuguesa de Camões é diversa da de Sophia ou da de Torga. Como a de Pessoa difere da de Segastião da Gama ou Anne Hatherly. Todas banhadas pelo Atlântico, como esta terra. E habitadas pelo azul, deste céu. Ah, e da mistura de quem viaja, de si em si, de si para o outro, do outro e de si para o mundo.

Palavras, que ainda quando insuficientes, são a roupagem feliz das ideias.
Ou as melhores que se lhes consegue vestir...

Beijos, risos e letras

Lady Traveller

(Imagem: Tanja Hoffman)

terça-feira, maio 30, 2006

Oferecendo flores




















As Asparagales, família Orchidaceae, crescem procurando a luz. Possuem muitas e variadas formas e cores, o que, em si, desafia o próprio conceito de espécie. Com características próprias e demarcadas, cruzam-se de geração em geração, numa combinação quase infinita de novas formas e cores. Por isso, nem há sequer um consenso do que seria exatamente uma espécie de orquídea.
Bem a jeito de uma oferta singular, não parece?
A Vós, evidentemente.

Risos e flores,


Tardando...




















Caro Misan,

Fui pensando o que haveis afirmado, ainda que a passagem dos pensados aos realizados nem sempre tenha a simultaneidade desejável.
Pelo facto, pese embora seja decorrente de escolhas e priorizações, lamento pois ambos perdemos - ou, no mínimo, adiam-se os diá-logos.

Ah, o dilema e a angústia são de hoje mas também de ontem e de amanhã. Mesmo quando não se trata de uma «divisão interior de lealdades» e sendo a divisão de lealdades puramente interior (sorriso).

“Somos nós. É pegar ou largar. Ou sorrir, como prefiro.”
(Também) somos nós. Eleitos ou iludidos. Templos ou ruínas. Bifurcações sempre mais do que bipolares.
E o peso do instante mutante nas mutações constantes e imperceptíveis da vida!
(Também) somos conscientes da degenerescência e do paradoxo de ser - a um só tempo busca de salvação e contingência do fadado a extinguir-se.
(Também) ainda assim, nada de ser um elemento a mais na paisagem.
Que a interioridade singular proibe-o.

É uma espécie de condição, que prevê a qualquer momento a sua própria defesa.
Poderia ser uma consciência triste, no signo do sofrimento, a acompanhar uma exuberante certeza da finitude.
Ou poderia ser uma alegre consciência a acompanhar a fragilidade angustiada pelo risco de perda.
Ah, as metamorfoses das perspectivas...

Ainda assim, um modus vivendi que aspira à sabedoria, reconhecendo todo um potencial de inaptidão. Assim se reúnem a interdição e o sol do meio-dia.
Por aqui caminhariam de profundis puro e duro...
Que a vidência e a procura de si se aproximam, mesmo quando se desencontram.

E que procuramos Nós? Que procuro Eu, eis a formulação mais adequada.
Que cada Eu se debate e se procura, mesmo quando existem elos entre Eus.
Os pensados não se traduzem fielmente aos escritos, como se as ideias resistissem a vestir-se de palavras.
A persistente incomunicabilidade potencial ameaça sempre a transposição, como quaisquer fenómenos de interpretação bem deixam ver.
E escrever assim, como se vai pensando não atenua a probabilidade – antes pode aumentar o risco de desconexão.

Sorrindo da leveza do cálamo reencontrado, e da satisfação do regresso, saudo-Vos.

Lady Traveller

quinta-feira, maio 11, 2006

De Profundis

Abençoada sejais, Senhora, por terdes detido a Vossa marcha e vertido as sensações e reflexões que Vos saíram ao caminho em tão imerecida vasilha.
Como de costume, ao sugerir o mote, dais, igualmente a resposta. Perguntais por um ver «primordial» condenado a não ser definido como "inaugural". Quanta razão Vos acho! Desde logo porque creio que o sentido desse adjectivo deve ser, neste contexto, entendido como "liderante". A exacta condução que se acha no Que, inexplicavelmente, inspira. Daí que tenhais solucionado a questão na gentil despedida.
.

É que podemos pensar a mais abissal profundidade de uma visão que não corresponde, necessariamente, à intensidade posta no olhar, mas, em lugar dela, à que entra pelos olhos dentro, considerando-os como sinédoque do espírito sensível. Tantas vezes, embora não demasiadas, para que a transcendência sobre-habitual do momento não se elida, nos surge uma apreensão muito mais multifacetada do objecto do nosso cuidado, do que aquela que fitar permitiria. O problema, mas também a atracção dessas circunstâncias de elite, reside em a iniciativa ser como que sonegada ao auto-suficiente observador, como se alguma dimensão não imediatamente patente do olhado se permitisse agir, irrompendo por nós adentro.
É irritante esta consagração da espera, bem sei. A visão por nós querida repleta da profundidade que, romanticamente, déssemos como tocando o Infinito poderia ter o mérito do impulso atribuível ao que está em frente de nós, o que não reconheceríamos por estima própria e incapacidade de distinguir a fonte de movimento, quando em tal quadro envolvidos. Essa vidência - que mais do que visão é - tão coroada com a penetração à outrance, poderia ser, assim, obtida de olhos fechados, como na pintura «Vendo», de Magda Francot, aqui pespegada.
Mas nenhuma magia de percepção é maior do que a resulta inspirada directamente pelas Vossas palavras, lidas ou lembradas,
pelo que Graças Vos dou.
Misan

quarta-feira, maio 10, 2006

Duro. E Puro?

Senhora:
Tenho pensado na Vossa confessada leitura e na prioridade por Vós estabelecida em vista à procura da identidade. Da visão da lei como geradora dos compromissos é, evidentemente, o contrário do que um homem de tudo ou nada precisa
para se encontrar. Desde logo porque é feita não à sua medida, mas para estabelecer uma medida. E, para uma natureza que se demande à sua revelia, menos que Tudo é sempre igual a nada. O dever identificador como membro da comunidade repousa na capacidade que a acha respectiva evidencie. Daí que a transferência e escolha entre Alfredo e os Dinamarqueses não devesse ser uma perda de pertença, já que era apenas antecipação de fusões posteriores, auxiliadas pelos grandes meios do massacre e da procriação. Os dramas do predomínio da herança ou do indivíduo parecem muito mais visão contemporânea do que foi a Alta Idade Média do que correspondência real ao que se sabe ter sido. Sobretudo era época em que a divisão interior de lealdades pouco existia. A decisão tomada de integrar a horda ou aderir aos que tentavam refreá-la era a boa, qualquer que fosse o lado para onde se inclinasse.
O dilema e a angústia, ai, são de hoje. Porque mesmo comparando os casos das duas épocas em que a irreversibilidade impere, in illo tempore não se procurava desculpas nem se encontrava lamentos. Esses são de um tempo deleitado com a humanidade em que se pretende reconhecer, mas assombrado pela inerente fraqueza. Somos nós. É pegar ou largar. Ou sorrir, como prefiro.
Inclino-me perante o Vosso Repto.

Thrope